A ética do hardcore

Paura You Against

Rodolfo e Rogério. Foto: YouAgainst!

>Depois de algumas tentativas sem sucesso, finalmente consegui marcar uma conversa com o Rogério (guitarra) e o Rodolfo (baixo), do Paura – uma das bandas mais celebradas do hardcore nacional e que está na ativa desde 1995, tendo se apresentado em 20 países tanto na América do Sul quanto na Europa.

Dentre as muitas fases que o Paura já teve em 17 anos de estrada, a mais recente começou justamente neste 2012, mais precisamente em setembro, quando a banda voltou da quarta gira pelo Velho Mundo e se viu em uma situação inesperada. “Nosso antigo baixista descobriu que ia ser pai antes da viagem. Ficamos meio ressabiados, mas ele nos garantiu que estava tudo certo. Mas quando a gente voltou ele deu a letra de que precisava parar e organizar a vida dele. Justo. Eu já sabia”, conta Rogério, “e nesse meio tempo eu já estava trocando umas ideias com o Rodolfo e acabei convidando o cara pra tocar”.

Rodolfo, que também toca no Good Intentions e é ex-Still X Strong, assumiu a nova função na semana seguninte com tempo apenas para ensaiar três vezes antes de subir ao palco. “Passamos pra ele qual seria o setlist e boa. O cara foi ouvindo tudo e tirou as músicas sem problemas”, lembra Rogério.

Como se percebe, 2012 vem sendo um ano agitado para o Paura. Além da mudança na formação, os shows na Europa e no Brasil, a banda lançou o EP Integrity Dept. (que você ouve AQUI) em vinil 7” e cujas músicas saem também no split Rage Through Integrity com o Clearview. “Não é todo mundo que tem equipamento para ouvir um 7”, um vinil”, comenta Rodolfo, “mas a maioria do público tanto do Paura quanto do Clearview é uma molecada que, mesmo com os problemas do mercado fonográfico, compram mais CD. E além disso um disco acaba sendo algo bem ‘exclusivo’, digamos assim. São feitas 300 cópias. Ter o material em CD, que geralmente sai em uma prensagem de mil cópias, é uma forma de fazê-lo seguir circulando.”

“Ter um registro físico é sempre mais interessante para a banda, óbvio”, diz Rogério. “Hoje em dia o pessoal baixa tudo na internet, mas baixa de uma plataforma tátil, de algo físico. É difícil ter algo rolando exclusivamente na internet. O vinil tá saindo bem, e isso meio que espantou a gente até. Mas são coisa que caminham lado a lado, entende? Temos que lançar na internet assim como temos que lançar o físico”, analisa. “Isso de só baixar acontece aqui. Lá fora o pessoal compra o download. Até mesmo pela qualidade. Tem gente que não percebe, mas o som vem com uma qualidade péssima se você baixa as músicas de um disco ripado”.

E é deste mais recente trabalho do Paura que vem “Worthless Progess”, clipe feito com orçamento de R$ 0 e na base da boa e velha camaradagem. A direção ficou por conta dos amigos Pablo Toledo e Raphael Cerqueira:

 

>>E 2013 promete mais novidades para quem curte a banda. Enquanto os trâmites para o lançamento do split são finalizados, o Paura trabalha em material inédito. “A gente nunca para. Temos cinco músicas encaminhadas, sendo que em duas estamos testando letras e vocais. Uma sexta também está a caminho, e essa já com contribuição do Rodolfo”, revela Rogério, “A ideia é essa: assim que estiver tudo pronto, dez ou onze músicas, entramos em estúdio para gravar um CD novo”.

Os planos de lançamento, porém, já não são tão certos assim. Um outro vinil não é prioridade, até porque, nas palavras de Rodolfo, não depende da banda: “precisamos que alguém se disponha a fazer isso. É muito caro! O split, por exemplo, está saindo por quatro selos ao mesmo tempo: Caustic, Travolta, Hearts Bleed Blue e SpiderMerch“.

“Os selos não se interessam mais tanto em investir em CD. A gente acaba vendendo bem porque a gente toca bastante. Nos shows é que rola a maior porcentagem de venda de discos”, conta Rogério. “Na loja virtual vende-se dois, três CDs por semana”, observa Rodolfo, “diferente de camiseta, boné, moletom, bermuda… O show é o que mantém tanto a banda quanto o selo”.

>>>A ética do hardcore. Quem já se dispôs a gastar dois minutos lendo a biografia do Paura na página da banda no TramaVirtual sabe que os caras misturam “a ética do hardcore com o peso do metal”. Mas o que isso realmente quer dizer? Rogério responde:

“Esse é um release épico! Mas o que a gente quis passar ali é que como formamos a banda nos anos 1990, já tínhamos um pé no metal. Sempre fomos caras que ouviam metal mas tocavam hardcore porque tecnicamente é mais acessível [risos]. Captávamos coisas de fora, tipo Strife, Earth Crisis… bandas com muita influência de metal. Essa mistura se deu aí: o peso desse som com letras que tinham uma mensagem. Esse é o hardcore. O metal sempre foi ‘bobo’ por não ter letra nenhuma com um apelo legal. Demônio, imagem, pesadelo… pô! Os únicos que elaboravam mais eram os caras do Metallica. Aí a gente pensou algo do tipo: ‘vamos juntar Slayer e Bad Brains’. A ética do hardcore é o Bad Brains. O que todo mundo fala hoje os caras falavam na década de 1980; toda aquela história do PMA. Se alguém se meter a falar de hardcore e não sacar de Bad Brains… sinto muito”.

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